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A mãe digital

13/10/2016

 

Sempre me senti como um espírito velho. E, por isso, tenho que confessar que me sinto bem em escrever algo contra o movimento digital e a tecnologia.

 

Não estou aqui dizendo que não reconheço sua importância nas nossas vidas. Mas, é como aquela sensação que temos com certas pessoas, sabe?

 

“Reconheço que é uma ótima profissional e vejo os retornos que ela traz para a equipe, mas, por algum motivo, fico meio cabreiro, entende?...não confiaria a ela nada que seja realmente importante para mim”.

 

E, como pediatra, tenho razões a mais para agir assim. Me explico:

 

A ciência não permite sensibilidades. Qualquer tipo de emoção vai frontalmente contra o método científico.

 

Distorce variáveis, confunde resultados. Uma lástima!

 

Na ciência, temos que agir como Têmis (a deusa da Justiça): colocar uma venda nos olhos e refrear nossa natural subjetividade. O afeto não pode influenciar nossa percepção.

 

É imprescindível deixar de lado toda suscetibilidade às emoções para podermos avaliar de maneira fria e imparcial os dados que se desenham a nossa frente.

 

Mas, (sorte a nossa!) não há nada tão contrariamente oposto a isso como a maternidade! Para se ser uma mãe suficientemente boa, é fundamental dar vazão aos sentimentos mais íntimos e confiar neles. Toda a subjetividade e calor humano são bem-vindos para essa tarefa!

 

Isso é intuitivo, não? (e é assim que deve ser!). De qualquer forma, tenho um caso que ilustra o que estou falando:

 

Uma vez, acompanhei um casal com retardo mental que acabou tendo um filho.

 

O que se poderia esperar? Como iriam cuidar dessa criança?

 

Havia uma ansiedade geral, uma previsão de algo trágico para esse bebê...

Como ela vai aprender a amamentar? Conseguirá dar o banho em temperatura adequada e sem colocá-lo em risco? E a posição mais segura para dormir? Será que entendeu os dias em que terá que vir à unidade de saúde para as consulta de rotina e para as vacinas? Como estimulará o bebê a adquirir os marcos esperados em cada idade?!...

 

Surpreendentemente, a maternidade, pelo menos nos primeiros meses de vida, parece algo mais visceral do que cortical.

 

Em outras palavras, para se cuidar de um bebê, é preciso mais coração do que cérebro.

 

Essa mãe era incapaz de compreender uma única orientação que lhe fosse dada por qualquer um dos membros da equipe. Mas, sabia o que tinha que fazer com aquele bebê nos braços.

 

 

Ela não precisava da gente. Éramos nós que precisávamos dela.

 

Ela amamentou o bebê de maneira exclusiva até os seis meses de idade.

 

Apesar da condição social de risco, até o primeiro ano de vida, a criança praticamente não adoeceu e se desenvolveu muito bem.

 

Adquiriu todos os marcos que a ciência nos diz que uma criança “normal“ precisa de ter nessa idade, neuro e psicologicamente.

 

Era uma criança ativa, feliz e saudável.

 

Depois, não tive mais notícias do caso. Mas, até onde pude acompanhar, a tragédia que se anunciava não se concretizou. Ela teve todo o amor de que precisava.