• André Botinha

BLW: um passo rumo à independência?!


Recentemente, tenho percebido uma certa demanda pelo Baby-Led Weaning (Desmame Guiado pelo Bebê, com a licença da tradução).

O BLW, do ponto de vista formal, é uma proposta recente (com pouco mais de 8 anos) e, aparentemente, não existem muitos profissionais conversando à respeito.

Mas o que isso significa afinal?

Independência ou morte!

Diria nosso suposto libertador Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.

Mais conhecido como Pedro I.

Espero, sinceramente, que ele não tenha tido que escrever seu nome completo como dever de casa no primário. Poderia tê-lo deixado com trauma suficiente para que passasse a odiar a educação formal.

Aliás, acredito que esse seja um risco ainda em curso! Sempre me arrepio quando me deparo com crianças vestidas de médicos, engenheiros, advogados nas traseiras dos ônibus. “Cuidamos de seu futuro!”.

Como pode algo assim?!

Não faria mais sentido uma criança de bermuda, correndo pelo pátio e estampando o slogan “Cuidamos da sua infância”? Me pareceria mais apropriado para uma escola...

Bem, fechando os parênteses e voltando ao ponto:

Entendo o BLW como uma proposta interessante de independência. O BLW está, sim, associado à alimentação. Mas, a proposta me parece contida em um sentido de independência mais amplo.

“Como você gostaria que seu filho se alimentasse aos 2 anos e meio, 5 anos de idade?

Quero que coma um purê que fiz especialmente para ele e que tenho que dar em sua boca? Algumas vezes, tendo que tirar a sua mão para que não recuse? Outras tendo que distraí-lo com a Galinha Pintadinha para que aceite tudo que estipulei?

Ou...

Prefiro que coma macarrão, arroz, feijão, carne, verduras e legumes...com seu próprio garfo, de maneira independente, mastigando, engolindo e respeitando seu próprio apetite?

Até onde pretende chegar, tem que caminhar nessa direção. Se caminha para o Norte estando em BH com a intenção de chegar ao Rio, por maior que seja o seu esforço, não estará mais perto do destino a cada dia, mas, pelo contrário, estará cada vez mais longe.”

Essa seria a fala de Carlos González (com minha adaptação geográfica) ao introduzir sua palestra sobre alimentação do bebê.

Neste vídeo, está a apresentação na íntegra:

Sim! É um vídeo longo...Saindo agora de BH, passaríamos, com sorte, a Lagoa dos Ingleses durante a sua execução em direção ao Rio.

Mas, vale a pena. É uma boa introdução para essa viagem.

Esses dias, estive em um aniversário de criança.

Desde que me tornei pediatra e que comecei o consultório adquiri um péssimo hábito que tem se sobreposto cada vez mais a qualquer tipo de censura.

Me flagro observando os pais lidando com os seus filhos em shoppings, aeroportos, filas de caixa, livrarias, padarias e todo lugar em que me encontro. Gostaria de ter a discrição do Gato de Cheshire, mas não é o caso.

Muitas vezes sou devolvido à Terra por olhares de desaprovação. Mas, o que se há de fazer?

Muitas vezes, são os próprios pais que me convidam indiretamente. Então, me redimo parcialmente da culpa.

Foi o que aconteceu nesse aniversário.

Chegamos no local e, aguardando na entrada, estava uma mãe com sua filha. A criança devia ter entre 2 e 3 anos.

Quando chegamos, a primeira reação da mãe foi ordenar: “cumprimente eles, filha!”.

Ela nunca tinha nos visto. Éramos completos estranhos. Naturalmente, a criança virou o rosto e se escondeu de nós. Não esperaria nenhuma atitude diferente nessa idade.

Mas, a mãe se surpreendeu. Logo emendou: “que menina feia. Está com essa bobagem agora de não cumprimentar as pessoas. Me mata de vergonha”...

Esse foi o convite de observação que recebi.

Como deveria ser em uma festa de aniversário de dois anos, o espaço estava muito bem preparado com cama elástica, piscina de bolinhas e muitas crianças correndo sem rumo.

A criança da entrada, mal chegou na festa, ensaiou alguns contatos tímidos com outras crianças, fez de ir em direção aos brinquedos, mas sua mãe não permitiu que ela fosse muito longe.

Seguiu cuidando para que ela se comportasse bem e para que a situação não fugisse do controle...

Além do mais, quantos riscos existem nesses brinquedos e, principalmente, quantas crianças desgovernadas!...

Seria prudente deixar uma criança tão nova exposta a tantas ameaças?

Acontece que “viver é muito perigoso...Porque aprender a viver é que é o viver mesmo...Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa...O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

E o rabo da palavra é o focinho do desejo, não é Guimarães?

Fato é que chegou um ponto em que essa criança desistiu de se desvencilhar e se deixou ficar no colo da mãe, devidamente protegida e assentada em uma mesa de adultos.

E assim permaneceu pelo tempo que lá fiquei...

A frase a seguir está na Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire:

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo. Os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Não há educação no adestramento.

O papel do educador é o de facilitador do aprendizado.

Mas, afinal, onde o BLW entra nessa divagação?

Bom, o BLW está permeado por uma proposta de respeito à independência do bebê, que tem uma função ativa no aprendizado da alimentação. Sempre supervisionada, claro! Não isenta de riscos, também claro! E não é uma proposta que será bem-vinda em todos os cenários, não há dúvida.

Afinal, não há caminhar sem quedas; não há autonomia na alimentação sem alguns engasgos; não há aprendizado de auto-defesa sem safanões no meio do caminho...

A síntese nasce da antítese.

O objetivo desse texto, porém, não é o de ensinar a como fazer o BLW.

Se essa é a intenção, recomendo, de fato, o curso da Conalco, ministrado pela Aline Padovani com várias parcerias.

Não tenho nenhum vínculo com o curso. Não há conflitos de interesse aqui.

Simplesmente, achei o curso muito bom. Objetivo, claro, bem estruturado e, acima de tudo, isento de uma visão romântica tão frequente quando o tema é uma nova proposta.

É um curso sóbrio, de pés no chão. Destaca os desafios da proposta com o mesmo cuidado que abrange seus benefícios. Levanta várias das limitações e dos desconhecimentos que temos a respeito do BLW, que não são poucos.

A maneira responsável como o curso foi estruturado é o que me inclina à indicação.

Acredito que seja um ótimo começo para quem quer saber mais sobre de onde veio e para onde vai o Baby-Led Weaning. Deixo o convite aqui.

Para encerrar o Grito do Ipiranga, me valho das palavras de Françoise Dolto:

“Cumpre inculcar em nossos filhos, muito cedo, que não se vive, que não se cresce, que não se come, que não se domina o corpo para dar prazer ao adulto, mas para um prazer de conquista pessoal.”

“Nosso papel [...] não é o de desejar algo para alguém, mas de ser aquele graças a quem esse alguém pode chegar até seu próprio desejo.”


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