• André Botinha

[Re]começando 2017! O que os 'pumbos' têm a nos ensinar...


Neste último domingo, me permiti toda a preguiça que acompanha os feriados. Confesso que também acabei passando um pouco da conta no Réveillon. Já não tenho mais o fôlego que tinha antes dos trinta e o corpo sente.

Assim, me atirei no sofá e fui assistir um episódio da Série do Netflix “Chef’s Table” à respeito de Dan Barber.

Conheci a série na casa de um amigo, o que me rendeu a perda total de um dos poucos encontros que tive com ele no ano passado. Fiquei realmente absorvido.

Enfim, dessa vez também, o episódio ficou retumbando.

Dan Barber é um chef norte-americano que tem feito uma grande revolução na maneira de conduzir uma gastronomia sustentável e de qualidade.

Se preocupa com todo o processo de produção dos alimentos utilizados em seu restaurante. E tem um papel ativo em cada uma das etapas. Do plantio ao prato...

Mas, o legal da série, é que ela traz uma visão quase que psicanalítica da história desses chefs.

Nesse episódio, Dan traz à tona alguns de seus momentos difíceis. Conta que perdeu sua mãe aos quatro anos de idade e abre toda uma reflexão sobre as ligações que se estabelecem a partir daí.

Não se trata exatamente do trabalho, mas, sim, da vida do retratado.

O trabalho é apenas um meio? Ou seria também um fim?

Trago alguns trechos do que ele diz:

Acho que isso [o trabalho] preenche uma necessidade dentro de mim.

Tem um jeito de ver minha vida como muito exemplar no sentido de que tenho dois restaurantes muito bem-sucedidos. E tem outra forma de vê-la que é bem triste.

Parte do trabalho é a tentativa de preencher essa tristeza ou algo que não tive na vida e que gostaria de ter tido.

Preencher um vazio.

Não sei se a mãe morrer quando se tem aquela idade termina sendo preenchido algum dia...

Fizemos boa parte disso porque tínhamos esse vazio na vida que estamos tentando compensar?

Montamos um restaurante. Sempre existe um pensamento inconsciente: quem virá ao restaurante?

Montar um restaurante é um jeito de trazer nossa mãe de volta à mesa, por assim dizer?

Pode ser que sim...

Nossa vida não é uma tentativa de preencher um vazio após o outro?

Não sei se estou tendo sucesso nisso, mas estou trabalhando duro.

Quem sabe de onde isso vem e aonde vai?...Eu não sei. [...]

Todo chef bem-sucedido que conheço viveu momentos de fracasso muito intenso. [...]

O fracasso é muito importante. Te introduz a idéia de que você nunca mais quer voltar a ele.

Pausa aqui para citar Spitz e sua fala sobre o papel da frustração na aprendizagem e no desenvolvimento.

Mas, não me atenho a esse ponto.

Dan continua:

Esse negócio todo é um desafio para minha vida.

Como Wes Jackson gosta de dizer: 'se está pensando sobre uma idéia que você pode resolver durante o seu tempo de vida você está pensando muito pequeno'.

Isso me dá esperança e energia, pois me pergunto onde essas idéias se juntam.

Se você é um nutricionista, estará vendo tudo sobre uma perspectiva míope.

Importante, mas míope.

Se você for economista agrícola, terá outra visão da coisa.

Se for ecologista e quiser preservar o espaço aberto, terá ainda uma outra visão.

Onde está a ligação?

No prato de comida.

E esse é o poder do chef.

Quantos são nossos poderes (ainda que imaginários), frustações e compensações?

Se escrevo sobre isso no blog e se tive a necessidade de montar um consultório há pouco mais de um ano atrás, os motivos me são muito mais ocultos que claros.

Mas, não há dúvida, que desempenham algum papel de compensação para mim.

Dizem que a consciência é apenas a ponta de um profundo iceberg, não é?

Engraçado que estou lendo um livro que vai ao encontro dessa perspectiva.

Engraçado, não!...acho que acabamos por ficar mais permeáveis às coisas que nos fazem algum sentido (ainda que momentâneo) e vamos metamorfoseando para que tudo se encaixe no nosso número.

Na minha visão míope de pediatra, impossível que não me viesse à memória a leitura ainda tão úmida de Piaget e sua descrição do jogo simbólico na criança.

Piaget acompanhou, dia após dia, o desenvolvimento de seus três filhos. Aqui, cito um trecho sobre Jacqueline, sua filha mais velha, aos três anos de idade:

Uma forma de combinações simbólicas é composta pelos ciclos de episódios atribuídos a um personagem imaginário desde o começo.

Aos 3 anos 11 meses e 20 dias, Jacqueline inventa um animal a que dá o nome de ‘o pumbo’ (por diferenciação intencional de “pombo”, que ela já pronuncia corretamente nesta idade).

J. imita-o e encarna-o: corre pelo quarto batendo as asas para imitar o vôo. Mas corre igualmente de gatinhas, grunhindo: ‘é uma espécie de cão’ e, ao mesmo tempo, é ‘como um grande pássaro’.

A sua morfologia varia de um dia para o outro: tem asas, patas, um tamanho ‘imenso’, longos cabelos...

Possui autoridade moral: ‘não se pode fazer isso (rasgar um papel). Pumbo vai zangar.’ A dois dias de distância, J. esforça-se por comer bem, para que Pumbo não se zangue.

Aos 3 anos 11 meses e 22 dias, J. observa um pato depenado: ‘está morto, porque já não tem penas. – Sim – Acho que foram os pumbos que as comeram.’

Aos 3 anos e 11 meses, J. vê bater uma veia, após um corte: ‘de que é que brinca o suquinho vermelho que está na minha pele?...Deve estar fazendo de pumbo, olha, assim’ (saltos periódicos a cada dois ou três passos).

Aos 4 anos e 7 dias, o seu pumbo morreu. Aos 4 anos e 17 dias ‘virou cachorrinho e, depois, voltou outra vez a ser pumbo’. À medida das descobertas zoológicas de J., Pumbo adquire em seguida todos os atributos possíveis: inseto etc.

De modo geral, esse estranho ser que a preocupou durante cerca de dois meses serviu-lhe de suporte para tudo o que ela aprendia ou desejava, de encorajamento moral na execução de ordens e de consolador nos momentos de mágoa. Depois desapareceu.

Essas formas de jogo, que consistem, pois, em liquidar uma situação desagradável revivendo-a ficticiamente, mostram com particular clareza a função do jogo simbólico, que é assimilar o real ao eu.

Trata-se apenas de reforçar a conscientização dos poderes recentemente adquiridos ou de ampliá-los ficticiamente. Trata-se de permitir ao eu que se desforre da realidade, ou seja, que compense esta última.

Basta que o jogo, para preencher a sua função própria, reproduza tal e qual as cenas em que o eu correu o risco de derrota para permitir-lhe assimilá-las e vencer ulteriormente.

Mais tarde no livro, Piaget faz toda uma construção a respeito das semelhanças entre o jogo simbólico na criança e os sonhos no adulto.

O trabalho seria uma maneira de sonhar acordado?

Eu não sei...

Mas, Dan e Piaget se encontram nesse ponto...estamos o tempo todo tentando preencher nosso vazios. Seja de maneira imaginária ou real...

Que em 2017, o trabalho nos gratifique, console, frustre, engrandeça, desafie e nos permita sonhar e recomeçar todos os dias as idéias que deixaremos para o mundo.

Os vazios continuarão existindo.

Da nossa parte, agradecemos a cada um que fez parte da pequena história do Mirim até aqui e preencheu com um pedacinho da sua história este lugar.

Fontes:

1. Netflix - Chef's Table. Temporada 1; Episódio 2 - Dan Barber

2. PIAGET, Jean. A Formação do Símbolo na Criança. 3ª edição, Editora LTC.


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