• André Botinha

Meu bebê tem cólica e chora sem parar! O que eu faço?! (mitos e verdades)


O choro excessivo do bebê é um dos problemas mais desgastantes da infância. É desgastante para o bebê, para os pais e para o médico.

Já chegou a pensar que o fato de seu bebê chorar muito seja um sinal de doença ou você já se sentiu incapaz de cuidar dele nesses momentos?

A cólica do bebê é uma condição benigna e que se resolve sozinha com o tempo. Porém, a maneira como os pais lidam com o choro de seu bebê e a interação que se estabelece com o pediatra nessa época é muito importante.

O que sabemos sobre cólica até o momento e os cuidados com o bebê que podem ajudá-lo serão discutidos aqui.

#1. O que é a cólica do bebê?

Uma definição que ainda une vários autores envolve os critérios de Wessel, descritos em 1954, e conhecidos como “regra dos 3”. São crises de choro que acontecem, pelo menos:

  • 3 horas por dia

  • 3 vezes por semana

  • 3 semanas seguidas

  • e que duram até os 3 meses de idade.

#2. O quanto é esperado que um bebê chore?

Todo bebê chora mais nos primeiros três meses de vida. Em um estudo norte americano sobre lactentes normais, a média de choro nos primeiros meses de vida foi a seguinte:

  • 2 semanas de idade: 1 hora e 45 minutos/dia

  • 6 semanas de idade: 2 horas e 45 minutos/dia

  • 12 semanas de idade: 1 hora/dia

O pico (maior tempo de choro), geralmente, fica entre 3 e 6 semanas de idade.

Até 40% dos bebês apresentam cólicas e, na maioria das vezes, elas começam a partir dos 15 dias de vida.

É importante pontuar que as cólicas do bebê precisam ser diferenciadas de uma série de condições que também causam choro excessivo.

Na maioria das vezes, isso será possível através da escuta da história que os pais trazem e de um exame detalhado do bebê.

#3. E porque as cólicas acontecem?

A causa das cólicas é desconhecida. Mas existem algumas teorias que tentam explicar porque elas acontecem.

Até pelo seu próprio nome, a cólica nos remete a alguma disfunção do intestino do bebê.

Hoje, o entendimento é de que as cólicas são uma variação da normalidade e não uma doença.

Acredita-se que ela seja causada por uma imaturidade dos mecanismos que regulam os movimentos do intestino do bebê e, após os três meses de idade, as cólicas simplesmente desaparecem na maioria das vezes.

A técnica de amamentação também parece contribuir. O intenso fluxo de leite ou o hábito de oferecer a mamadeira deitada contribui para maior deglutição de ar durante a mamada. Isso é agravado se o bebê não é colocado para arrotar.

Mamadeira deitada: metade do bico com leite e metade, com ar.

Intolerâncias nutricionais, como intolerância à lactose ou alergia a proteína do leite de vaca parecem ser insignificantes causas de choro excessivo em bebês saudáveis. E, geralmente, as intolerâncias são acompanhadas de outras manifestações além do choro.

A cólica também é considerada um fenômeno psicossocial! Ela está ligada ao temperamento dos pais e ao temperamento do bebê. O vínculo que se estabelece é muito influenciado pelas aptidões e inseguranças dos pais.

#4. Como fica o bebê na hora da cólica?

A cólica vem como uma crise de choro e irritabilidade. O começo da crise não customa estar associado ao que o bebê estava fazendo. As vezes, o bebê estava bem, outras vezes estava se alimentando ou até mesmo dormindo. E, de repente, vem o “ataque”! Tende a ser mais frequente no final da tarde e início da noite.

Você já presenciou essa cena?!

O choro da cólica é diferente de outros choros do bebê (por fome, frio ou por estar com as fraldas molhadas, por exemplo). Geralmente, é mais alto e mais intenso. Pode parecer que o bebê está com dor e em sofrimento.

Na hora da crise, o bebê pode ficar com o rosto vermelho, fazer força com a barriga e jogar as pernas sobre ela, apertar os dedos, enrijecer os braços e arquear as costas.

O bebê com cólica pode ser difícil de consolar. O alívio, algumas vezes, só vem após eliminação de gases ou após evacuação.

#5. Mitos e verdades sobre a cólica do bebê

Eu posso deixar meu bebê mimado por dar colo quando ele chora?

De jeito nenhum! O bebê foi gerado em um abraço do útero. E ficou 9 meses nesse abraço. Nada mais natural que queira continuar abraçado após o nascimento.

Deixar o bebê chorando no berço indefinidamente para evitar que ele fique mimado é um grande mito!

Dar colo e aconchego é uma das maneiras de confortarmos o bebê no momento da cólica. E, assim, acalmá-lo. Aproveitem essa época porque logo, logo seu bebê vai crescer e deixará a saudade dessa fase gostosa de tê-lo no colo.

E o que pode ser feito para ajudá-lo?!

Um pediatra norte americano, chamado Harvey Karp, desenvolveu uma técnica que chamou de “os 5 ‘s’”. Eles significam:

  • Swadding: embrulhar o bebê

  • Side or stomach: colocar o bebê de lado ou de bruços.

(Mas, lembrem-se! Essa posição não é adequada para colocá-lo para dormir! Falamos sobre isso no artigo 6 informações importantes que você precisa saber sobre Morte Súbita Infantil)

  • Shushing: sussurrar para o bebê

  • Swinging: embalar, ninar o bebê

  • Sucking: sugar (o bico, por exemplo)

Abaixo, está o vídeo em que Harvey Karp explica e demonstra como funciona a técnica dos 5 “s”.

Parece ajudar?! A continuação da explicação pode ser vista na íntegra nos vídeos a seguir:

Parte 2

Parte 3

Parte 4

E os remédios para cólica?! Quais funcionam de verdade?!

Até onde sabemos, não existe nenhum remédio que comprovadamente funcione para o alívio de cólicas!

Nenhuma das medicações tradicionalmente utilizadas para cólica, como simeticona (Luftal, Flagass) e Lactobacillus reuteri (Colikids), tem eficácia comprovada contra as cólicas até o momento (apesar de serem reconhecidas como medicações seguras).

Porém, o mais grave, é que alguns medicamentos vendidos com a promessa de melhora podem trazer sérios efeitos colaterais para os bebês.

Para se dar um exemplo, um estudo de 2013 que avaliou produtos fitoterápicos norte americanos encontrou que 59% continham espécies de plantas que não estavam descritas no rótulo. Um terço desses produtos possuíam contaminantes que não estavam especificados na embalagem.

E ainda mais grave! Análise de medicações homeopáticas para cólica do bebê em um estudo de 2010 identificaram álcool, propanol e pentanol (três substâncias potencialmente tóxicas) misturadas a três princípios ativos do medicamento – colocynthis, Veratrum álbum e Strychnos nux-vomica.

Em resumo, não utilize medicações sem antes conversar e dividir as dúvidas com seu pediatra.

E para finalizar...

Ficar angustiada com um filho que chora não é só normal, mas é a prova de que a mãe está antenada e ligada ao bebê. Toda mãe, ao menos uma vez na vida, carregou um filho chorando enquanto ela chorava junto.

O mais importante não é ter um bebê calmo o tempo todo, mas ir aprendendo a lidar com o que ele precisa. E ninguém mais capacitada que a mãe para entender o temperamento de seu filho.

Fonte:

1. Patient information: Colic (excessive crying) in infants (Beyond the Basics). Teri Lee Turner, MD, MPH, MEdShea Palamountain, MD. UpToDate, Feb 2016.

2. Infantile colic: Management and outcome. Teri Lee Turner, MD, MPH, MEdShea Palamountain, MD. UpToDate, Feb 2016.

3. DNA barcoding detects contamination and substitution in North American herbal products.AUNewmaster SG, Grguric M. BMC Med. 2013 Oct;11(1):222. Epub 2013 Oct 11.

4. Use of a homeopathic preparation for "infantile colic" and an apparent life-threatening event.AUAviner S, Berkovitch M. Pediatrics. 2010;125(2):e318.

5. Choro excessivo de um lactente pequeno - cólicas. Renato Coelho. Manual de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. Ricardo Halpern. Manole, 2015.

6. Um agradecimento especial ao grupo Estudo Pediatria! pela rica conversa que (coincidentemente) tivemos sobre cólica nessa semana.


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